dezembro8
Fazia um bom tempo que o Vicente não via o Armando. Fizeram faculdade juntos, chegaram a montar um pequeno negócio, mas não deu certo. Aí então se separaram, cada um seguiu seu caminho e nunca mais se encontraram. E lá se foram uns 10 anos sem que um visse a cara do outro.
E agora, sentado alí naquela mesa do boteco, onde outrora costumavam jogar conversa fora, entre um e outro gole de cerveja, Vicente refletia:
_ Que fim levou o Armandão? Terá batido as botas? Do jeito que bebia, não é difícil…
E não é que o Armando apareceu. De repente, do nada, como que se tivesse materializado, alí estava na frente do Vicente, o bom e velho Armandão.
_ Puta que pariu, seu viado, por onde andou?!!! – a euforia de Vicente ao ver Armando chamou a atenção das pessoas ao redor, mas ele pouco se importou e continuou com aquele palavreado típico de bons amigos que não se vêem há muito tempo.
_ Caralho, meu! Você não vai acreditar! Tava pensando em ti agorinha… Que puta transmissão de pensamento! Você não morre mais!!! Quem é vivo sempre…
Mas Armando teve que interrompê-lo:
_ Sim, sim, meu querido Vicente, quem é vivo sempre aparece, mas não apenas os vivos, os desencarnados também o fazem, quando a ligação é forte.
Vicente deu uma gargalhada daquelas que a gente só vê na internet:
_ Ahshuawshuawshuawshuawsahh!!! Que boiolagem é essa Armando, andou queimando a rosca por aí? E essa voz mansa, tá de sacanagem? Cadê o Armandão Boca Maldita dos velhos tempos? Senta aí e vamos tomar uma.
_ Eu insisto, meu amigo, e você há de me compreender. Como você mesmo diz, quem é vivo sempre aparece. Mas devo repetir: quem não é vivo também pode fazê-lo. E eu sou a prova disto.
A expressão de deboche foi aos poucos desaparecendo da cara do Vicente.
_ Chiii, Armando, que papo estranho é esse? Já sei, pegadinha! Rá!!! Você já foi melhor, Armandão. Agora deixa de sacanagem e diga lá, o que o traz de volta pra essas bandas?
_ O chamado, meu amigo, o chamado. Venho lhe trazer o chamado.
_ Porra Armando, tá me deixando preocupado. Do que você tá falando? O que aconteceu contigo? Parece que está mais morto do que vivo. E que roupas brancas são essas? Virou pai de santo?
_ Não Vicente, estou mais vivo do que nunca, porém livre do corpo. E quanto ao chamado, logo você compreenderá, meu querido…
_ Se me chamar de querido de novo, te dou uma bifa no meio da cara. E eu não chamei ninguém, nem o seu telefone eu não tenho mais. E que saber? Fui!
Vicente levantou-se, mas não chegou a dar 3 passos até que sentisse uma forte dor no peito. As vistas então se escureceram, as pernas ficaram bambas e puf… Apagou.
Acordou poucos minutos depois, sentado no chão frio daquele bar e amparado por seu amigo Armando.
_ Putz, Armando, acho que desmaiei, tô ficando mole…
Após o susto, Vicente foi se recuperando. Tudo parecia normal, o bar, as pessoas, a mesa, o copo de cerveja… mas algo estranho chamou a atenção de Vicente.
_ Opa, peraí Armando, que porra é essa? Quem são esses loiros tocando harpa? E esse cheiro de flores?…