Medo de Assalto

Sueli tinha pavor de assalto. Não podia nem ouvir tocar no assunto. Desde o dia em que vira uma senhora sendo roubada, alí, bem na sua frente, em plena luz do dia. Desenvolveu até uma teoria de que todo ser humano seria assaltado, pelo menos uma vez na vida. Podes crer, seu dia vai chegar, e o meu também – alertava Sueli para os amigos.
E como forma de amenizar a ansiedade, tentava imaginar a cena: como seria o bandido, alto, baixo, gordo, magro, loiro, moreno… O que ele diria, como ela reagiria? Estaria armado? Faca ou revólver?
Só de uma coisa Sueli conseguia ter certeza: seu dia chegaria, mais cedo ou mais tarde. E por isso procurava se precaver. Andava com pouco dinheiro, talão de cheques só com uma folha, jóias nem pensar. E comprou até um desses aparelhos de defesa pessoal, aquele spray com gás de pimenta ou coisa parecida. E não é que o dia dela chegou. Era um dia como outro qualquer e Sueli caminhava de volta do trabalho. Passos firmes e longos e a bolsa agarrada ao corpo. Precavida que era, percebeu a aproximação de um sujeito. Ele a vinha seguindo já a uns 100 metros. Ela apertou o passo, ele acompanhou. Então não restava outra saída. Meteu a mão dentro da bolsa, segurou o spray e só esperou o meliante chegar.
Assim que ele a alcançou, Sueli sacou o spray. Mas antes mesmo que pudesse tomar qualquer atitude, foi surpreendida por uma doce e melosa voz: “Desculpe senhorita, eu a vejo passar por aqui quase todos os dias e não pude resistir, eu tinha que te falar, você é a coisinha mais fofa que jamais vi”. O rapaz era até de boa aparência, bem vestido e tal, mas com uma cantada dessas não dava, né – pensou Sueli. E tascou uma resposta seca e ríspida: “Pois saiba que a fofinha aqui é casada, e muito bem casada”.
Foi uma situação um tanto constrangedora para ambos, mas Sueli sentiu que saiu ganhando, pois além de se livrar de um Dom Juan de araque, percebeu que se livrara também de um problema psicológico, economizando ainda algumas seções de psicanálise. Afinal de contas, que assalto que nada, que bandido que nada, não havia o que temer. Esses olhares suspeitos que ela vira nas ruas eram na verdade olhares de desejo. Não eram bandidos cobiçando sua bolsa, mas garotos sem-vergonha de olho em suas curvas. Chegando em casa, olhou-se melhor no espelho e viu que era até jeitosinha, deu uma empinada no bumbum, uma ajeitada nos seios em sentiu-se confiante.
No dia seguinte, mesmo horário, mesmo trajeto, mesmo local. Sueli desceu do ônibus e logo avistou um grupo de rapazes. Um deles assoviou e ela imediatamente virou o rosto, empinou o nariz e prosseguiu, desta vez não com passos apressados, mas com um suave desfile típico de uma garota de Ipanema. Com uma rápida olhada, percebeu que um dos rapazes se separou do grupo e vinha em sua direção. Meteu a mão na bolsa, mas desta vez não sacou o spray. Pegou um espelhinho de maquiagem, deu uma retocada no batom e aproveitou para conferir o look do rapaz através do espelho. Era o mesmo do dia anterior. Mordeu os lábios e pensou: “Ah, não! esse mala de novo.”. Enquanto o moço se aproximava, Sueli ensaiava mentalmente uma resposta: “Já não te disse que sou casada?…”.
E rapidamente ele chegou. Postou-se de frente para Sueli e antes que ela pudesse completar a primeira frase, deu-lhe a ordem: “Cala a boca e vai passando a bolsa, tia”.